segunda-feira

reLovolution

A quê nos vemos reduzidos nas nossas vidas ordinárias, cotidianas, normais. Nossa liberdade de movimento é restrita por um transporte público humilhante, pelo qual pagamos realmente caro, sem falar nos impostos que o governo nos rouba, e que não é capaz de prover um mínimo de dignidade -- e veja que não estou falando em conforto --, com seres humanos socados em vagões como se fossem gado; ou, para os que têm um carro, pela inoperância da malha viária urbana. Então vem o trabalho, incapaz de prover satisfação pessoal, permeado por ideologias vazias tais como a necessidade absoluta de ser melhor que o seu concorrente, para ganhar mais dinheiro, explorar mais funcionários, para ganhar mais dinheiro, deliberadamente mentir para seus clientes, pois você precisa ganhar mais dinheiro, produzir necessidades onde antes havia apenas o sagrado ócio, através de bombardeamento publicitário, imbecilizar adultos, adolescentes e crianças espalhando a ignorância como um vírus, para ganhar mais e mais dinheiro. Então você para para conversar com as pessoas e elas acreditam num deus invisível, morto, terrivelmente ciumento e dominador, que observa as ações do mundo atentamente para vingar-se depois. Essas pessoas acham que estão lhe fazendo um favor ao tentar lhe converter ou persuadir da existência dessa força bizarra, mas ficam extremamente ofendidas se você oferece um ponto de vista sincero e sem camisinhas semânticas. Dizem que você é louco ou que vai para o inferno ou, mais comumente, jogam uma praga qualquer, como dizer que você vai morrer de fome -- o que eu já ouvi pelo menos umas quatrocentas e cinquenta e oito vezes. Então há a sexualidade ordinária, de rua. As mulheres com roupas altamente sensuais, principalmente nos dias de calor, provocantes mesmo. Você olha para elas com aquele misto de curiosidade e apetite, mas para sua surpresa, apesar de elas se vestirem como umas camélias, a revelação de sua disponibilidade sexual para com elas lhes é ofensiva.

Lhes é ofensiva pois há séculos lhes é enfiado na cabeça que o prazer é ruim, traz a perdição e a ruína não só nesta vida, mas para toda a eternidade; e o sofrimento é bom, pois purifica, renova e liberta. Assim como o trabalho, que nunca deixou de ser uma fonte de sofrimento na humanidade, liberta. Mas isso ressoa mais profundo em alemão: Arbeit macht frei. Essa era a inscrição nos portões dos campos de extermínio nazistas. Que receberam apoio não só ideológico como material da igreja católica. Igreja cujo líder, Ratzinger, não só fez parte da juventude hitlerista e abrigou acusados de nazismo quando o terceiro reich caiu, como acobertou acusados de estupro contra crianças na época que era cardeal, ou bispo, ou acerbispo, ou qualquer coisa que o valha. Por outro lado, os estadunidenses precisam vender suas bugingangas inúteis e suas ideias pífias para todo o mundo, pois eles crêem ser os representantes mundiais da liberdade, apesar de terem iniciado inúmeras guerras e financiado um tanto de outras com o objetivo muito claro de exterminar, pilhar e impor. E os portadores de sua cosmogonia monossilábica vêm atingindo relativo sucesso por essas bandas de cá, abaixo do equador, em aniquilar todo traço de cultura autêntica, de pensamento autônomo, de economia alternativa de subsistência. Culturas, pensamentos e economias que são perseguidas não só por aqueles portadores de cosmogonias monossilábicas, mas por todos os seus advogados. Advogados que recomendam o trabalho, a dor e o sofrimento contra aquela sensação perigosíssima que é o prazer.

Perigosa pois mostra, numa concentração e num nível tão altamente invioláveis, o poder individual, a liberdade que o amor proporciona, a capacidade revolucionária de se sentir vivo, humano, de não aceitar o que nos reduz, de não ser tolhido em nossas escolhas pela imposição violenta da imbecilidade e da cegueira enquanto verdades metauniversais. Esse poder vem quando o chamamos honestamente, sem o ranço da culpa, de peito aberto, olhando nos olhos de um outro autêntico, do Grande Outro, do objeto A. É aí que moldamos nosso lar. E é para aí que vamos quando o desgosto para com a exacerbação da mediocridade e a apologia da escravatura nos acerta em plena segunda-feira, após um feriado repleto de méis, luares, sons e olhares.

Não fiquemos calados.

2 comentários:

Mary Prozak disse...

thanks for the image that brought sweet dreams

Wady Issa Fernandes disse...

" well you know...we all want to change the world..."