sexta-feira

poema de outono, para Tarkovsky

...um sentimento abstrato de não-pertencimento,
de estranhamento para com as coisas do mundo.
Uma desconexão mais ou menos leve,
sem dor ou prazer anexados necessariamente,
estendendo-se por toda a alma,
como se esta fosse desvincular-se do corpo
sem projetar sombras,
deixando para trás apenas um rastro de odores sutis.
Seria o dia então uma massa
sem pensamentos, palavras, movimentos que lhe infudissem
qualquer realidade mais válida
que a branca espiral de vento
no vértice entre o aqui e alhures,
entre o agora e o outrora,
entre o ser e o porvir.
Sim, eu imagino essa sublevação...
E nos caminhos que trilhamos,
nas estações em que nos esquecemos,
nos apartamentos onde naufragamos lentamente,
ano após ano,
década após década,
sim, lá estará o jato branco
nas costas da baleia branca,
sempre à frente.
Sonhei que era criança novamente...
Sentia-me feliz por todas as possibilidades
estarem abertas mais uma vez,
por estar cônscio da indefinição
deliciosa da imaturidade,
por não esperar do mundo
mais do que aquilo que ele me dá
a cada momento.
Mas vivemos amores,
tocamos músicas,
somos tocados
por fluidos aéreos e benéficos,
definimos nossas ações,
impomos nosso caráter progressivamente,
sentimos o estreitamento do potencial
em direção ao atual,
que por sua vez escoa para o esquecimento...
Então,
após vinte anos,
sobrevém o mar interior,
represado,
de um ser feito para o Amor, mas vivendo a Grande Queda.
Um lago gargantual,
de criaturas abissais,
de peixes-voadores e garças selvagens.
Pronto para despejar seu conteúdo
na realidade mais próxima,
galopando pelas planícies
como o vento que traz as chuvas necessárias às colheitas,
à sua frente os olhos do Outono,
atrás de si o Destino a correr
como um louco segurando uma navalha.

2 comentários:

Mary Prozak disse...

sim, os dias sã massas sem pensamentos como brancas nuvens que não sendo informes nos destilam e lapidam nosso sentido para as formas, apagando traços de nós enquanto podemos voltar a ser crianças mesmo que a nossa navalha tenha sido afiada até o ponto de onde não há mais retorno, simplesmente porque nossas almas não estão presas a nenhuma lei da gravidade e podemos inventar novas doenças que nos protejam das doenças que não queremos para nós

;] disse...

ou ainda...podemos ser, ter, ousar, criar...
mar sem ondas?
amor sem dor?
caminhos sem pedras?
A vida é um moinho.