sexta-feira

A forma do nada

A forma do nada é curva
de deslizar entre os dedos,
esguia como sonhos turvos
esquecidos ao despertar.

Se espreita-a por um momento,
a outro a consciência enfastia-se
e, longe de ter fim, a infinitesimal noite
refrata-se em cristais azeviches:

uma presença
ausente
de cor
no chuvisco intermitente

da solidão advinda do convívio,
do silêncio ruidoso dos dias,
da satisfação no vício,
do vício virtuoso de escrutinar
ao sol do meio dia
o negrume
da vigília;

couraça

eis o nada

um lobo na esquina
uma lembrança pré-uterina
uma forma volitiva

;

gramaticalmente errônea anti-substância do ser,
objeto do não-viver,
o conhecimento da destruição
do conhecimento,

o pesar ao pensar,
o escrever ao fugir,
a fuga ao amar,
a entrega à renúncia,
a vida que finda
por si só

por si



s

ó

por

s

i

.

2 comentários:

Leopoldo Barbosa disse...

aqui encontro o desencontrado, vi, vi aqui e poderei rever de qq lugar, fragmentos desse cara oitocentista, figura singular (no nada?), q (agora me lembro) ainda não ouvi ressoar o sax pela infinitesimal noite.

enquanto isso, aguardo o encontro com a anti-substância, com o lobo, com o útero.

abraço.

Fernando Fitipaldi disse...

Que uma música ao longe confere o carácter desencontrado e singular do útero rompido e do lobo faminto que a imitar um sax nos seus uivos mais tristes em uma noite de negrume em sua vigília, e suas presas trair pelo espanto admirável de sua atração solitária.