segunda-feira

novembro

Uma, duas, cinquenta tardes e manhãs de asfalto quebrado, dúzias de noites novembras. E o que consegui colecionar? Mariposas cor de veludo, espessas e gomosas. Os dias do cinza espedaçados por dentro. Vou me encolhendo no sol que se esconde até ser homogêneo nos sonhos, que me sonham violeta e opaco. Sem nuvens brancas. Como num clarão negativo, uma febre ao contrário me assalta com calma e me faz não dormir. A voz acabrunhada mal sai. Os gestos só se esboçam. As colunas do futuro uma a uma trincadas. Os trabalhadores há anos desaparecidos começam a voltar ao canteiro, apanham sem vontade os pedaços dos tijolos espalhados na bagunça da demolição e, lenta e precisamente, retomam a construção do muro alto que por fim vai isolar o castelo das planícies. Cuidam para que haja janelas estreitas o suficiente, de modo que a luz, filtrada, não incomode por demais. As pálpebras dão lugar a unhas mal-cortadas e a barba se transforma em plumas. Abelhas vem morar nos ouvidos -- seu mel escorrendo pelo canto da boca dentro da boca dentro da boca. Os trabalhadores planejam um fosso ao redor da última muralha, e resolvem povoá-lo com cinismo quando a hora for precisa. Por enquanto, mariposas bastam. De asas peludas, cor de veludo, espessas e gomosas.

2 comentários:

Vi disse...

... e isso quando as suas noites novembras só foram quatro até agora... mas, logo vem o mar te curar: VIVA JANEIRO! beijos e cuide-se!

Gus disse...

Good, too good to be good mood.
Much alike something I wrote once, callled "welcome back, ness!"

No, not talking about a video game.