Aquí viene la vieja bruja negra del Gran Paraguay!
[Francis Bacon, "Painting 1946"]
"...Quando vem a madrugada
meu pensamento vagueia,
corro os dedos na viola
contemplando a Lua cheia;
apesar de tudo existe
uma fonte de água pura:
quem beber daquela água
não terá mais amargura.
Desilusão, desilusão..."
Tal qual uma cena de um videoclipe do Tool que um druida amigo meu me mostrou. Um passeio pelo lado de lá. Uma temporada. Visitei o Tártaro. Vi as pedras angulares e os platôs por onde os caçadores soltam seus falcões. O hálito do falcão é frio e úmido como um pântano. A força mais fundamental, essa libélula carnuda que habita o peito, se agita sobremodo, tentando escapar pelo nariz, pela boca, pelos olhos, chocando-se com o limite do corpo como uma abelha contra o vidro da janela diurna. Mas o corpo todo já é o Tártaro. Como é devastadora essa consciência, no momento em que ela vem. Lembra uma retroescavadeira.
No entanto, mesmo ainda mergulhado em estranho cenário, vejo vindo no ar uma rasa aurora. É mais um cheiro que uma visão -- o que a faz tanto mais certa, uma vez que o olfato raramente se engana --, um aroma distante de manjericão. Ou de café recém-coado. À essa imagem já a libélua carnuda se acalma um pouco. Aguarda a tempestade vermelha que vai pôr abaixo o Tártaro, os caçadores, os falcões, os pântanos, os platôs. Então guarda forças em pequenos copos que vai acumulando. Depois acorda e volta a debater-se.
Já é a nuvem púrpura que vem ou é só o meu querer que ela venha que me engana? É fácil descer o Averno. Os grilos tilintam na amurada como sempre o fizeram. O homem que entra no Ganges e o que sai não são o mesmo, este é mais forte que aquele. Mais novo, mais terrestre, mais celestial, mais real.
"E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios, e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas; e a besta Belisa renderá os arrogantes corcéis da monarquia, e a vaca Belisa dará leite no curral vazio para o menino doentio, e o menino crescerá sombrio, e os antepassados no cemitério se rirão se rirão porque os mortos não choram." -- Drummond