terça-feira

de volta

Como é bom ter um puro sopro na alma! Um vento que traz a leveza das manhãs... Já estava quase me acostumando com o despertar diário num éden alagoano! E agora, a cidade passa lá fora da janela, com seus mistérios insondáveis, suas azáfamas. Soa como um ruído distante, a cidade que me cerca agora. Sinto ainda ao meu imeditato redor os coqueiros, a espuma do mar, as catraias de madeira e isopor. Serenidade! Quão acessível é a paz, e quanto nos forçamos para longe dela! Que jogo besta esse dos homens de paletó, com ares e palavras, todos cheios de uma gelatina cinza no peito... Que desperdício de vida esse do asfalto, do subterrâneo, da altura vítrea...

Reli esses textos raivosos que publiquei aqui no blogue... Que horror! Então é esse o resultado de se viver numa grande cidade contemporânea? Abaixo o verde tenebroso da bile! De agora em diante não haverá mais espaço para o rancor, nem para a raiva, nem nenhum pixel rabugento correrá mais nessas veias eletrônicas! Bons humores à frente, Capitão!

Para se definir minha estadia na Terra dos Altos Coqueiros em poucos adjetivos: quente, sereno e melancólico. Deixo o triste de fora só por preferência estética às elipses de três elementos. Mas não nos adiantemos... Tudo a seu tempo!

segunda-feira

dois e setenta

Como nós somos escravos das coisas. Quarenta anos atrás, creme de cabelo era luxo. Temos que trabalhar, vender nossa alma, produzir algo que nos é alienígena às custas da nossa saúde física e mental. E para quê? Saudades de Rosa e sertão. Nostalgia da época -- que não vivi -- em que podíamos andar a terra, segurar as crinas dos cavalos, cultivar o solo, cochilar à sombra de grandes árvores que pareciam eternas. Toda a filosofia do mundo não erradicou a escravidão, apenas mudou-lhe o nome. Hoje a passagem de ônibus em São Paulo subiu para absurdos R$2,70. Não há como sair de casa com menos de seis reais no bolso. E aí vem aquela balela cósmica dos direitos humanos, do livre ir e vir, tal. Pura cascata. História para boi dormir. E mais impressionante: nenhum protesto na cidade. Pelo contrário, uma paz celestial. Uma aceitação canina.

Um dia esse reino acabará. Esta noite sonhei que estava em Roma, na época do Império. Era um banquete. Eu desmascarava todos e depois fugia num submarino amarelo. Então as colunas começaram a ruir. Todas as noites vou dormir com a leve esperança ansiosa de acordar no dia seguinte com o mato cobrindo todos os prédios, os carros abandonados na rua enferrujando lentamente, os animais livres e os crânios dos nossos algozes de outrora empilhados na porta da cidade.

incêndio em comunidade no Capão Redondo, 2009

Er

Tal qual uma cena de um videoclipe do Tool que um druida amigo meu me mostrou. Um passeio pelo lado de . Uma temporada. Visitei o Tártaro. Vi as pedras angulares e os platôs por onde os caçadores soltam seus falcões. O hálito do falcão é frio e úmido como um pântano. A força mais fundamental, essa libélula carnuda que habita o peito, se agita sobremodo, tentando escapar pelo nariz, pela boca, pelos olhos, chocando-se com o limite do corpo como uma abelha contra o vidro da janela diurna. Mas o corpo todo já é o Tártaro. Como é devastadora essa consciência, no momento em que ela vem. Lembra uma retroescavadeira.
No entanto, mesmo ainda mergulhado em estranho cenário, vejo vindo no ar uma rasa aurora. É mais um cheiro que uma visão -- o que a faz tanto mais certa, uma vez que o olfato raramente se engana --, um aroma distante de manjericão. Ou de café recém-coado. À essa imagem já a libélua carnuda se acalma um pouco. Aguarda a tempestade vermelha que vai pôr abaixo o Tártaro, os caçadores, os falcões, os pântanos, os platôs. Então guarda forças em pequenos copos que vai acumulando. Depois acorda e volta a debater-se.

Já é a nuvem púrpura que vem ou é só o meu querer que ela venha que me engana? É fácil descer o Averno. Os grilos tilintam na amurada como sempre o fizeram. O homem que entra no Ganges e o que sai não são o mesmo, este é mais forte que aquele. Mais novo, mais terrestre, mais celestial, mais real.

Feliz ano novo a tod@s. Como no mito de Er, o blogue Coluna de Ar volta do Hades. Durante muito tempo considerei a possibilidade de um bloguecídio definitivo, sem retorno. Foi um estímulo o reavivou, como uma massagem cardíaca. Quem é sabe. É de pequenos estímulos que se alimenta quem de rojões se empanturrou. São digestivos. Melhores licores, menores taças. Sabe como é. Muito obrigado a tod@s que contribuíram direta ou indiretamente para que bons ventos soprassem nesse ano difícil que se foi. Sintam-se abraçad@s e beijad@s!

Aproveito para anunciar uma pequena pausa nas postagens. Não sem um sorriso malicioso de quem volta do mundo dos mortos e anuncia que vai tirar um cochilo. O sono, esse estranho irmão da morte! Ou como o malandrim que trabalha um, descansa um dois, trabalha três, descansa um dois três quatro. Mas não é picaretagem não. Volto em mais ou menos um mês. Trarei fotos!
;)

quinta-feira

nota de rodapé

Meio fútil, diga-se de passagem. Mas vem a calhar nesse momento de tempestades na baía do cais, com todos aqueles navios impedidos de zarpar, aguardando tempos melhores.

Foi feita uma lista (pela Forbes, estadunidense, obviamente -- eles são os campeões das listas fúteis) das pessoas mais poderosas da atualidade, segundo a quantidade de indivíduos sob sua influência, a quantidade de recursos à sua disposição, a amplitude e o uso ativo desse poder. A lista é bem democrática, abrindo espaço para políticos, empresários, terroristas, líderes religiosos, traficantes, apresentadores de tevê e outros mais. Faz pensar na natureza do poder hoje em dia. Alguns nomes de destaque e suas respectivas posições:

01. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos.
02. Hu Jintao, presidente da China.
03. Vladimir Putin, premiê da Rússia.
04. Ben S. Bernanke, diretor do FED, Banco central dos EUA.
05. Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google.
10. William Gates 3º, fundador da Microsoft.
11. Papa Bento 16, líder espiritual católico.
19. Li Changchun, chefe de propaganda do Partido Comunista da China.
33. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil.
37. Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al Qaeda.
39. Tenzin Gyatso, dalai-lama, líder espiritual tibetano.
41. Joaquin Guzman, traficante colombiano do cartel Sinaloa.
45. Oprah Winfrey, apresentadora de TV nos EUA.
54. Wadah Khanfar, diretor-geral da rede de TV árabe Al Jazeera.
56. Nicolas Sarkozy, presidente da França.
57. Steve Jobs, fundador da Apple e da Pixar.
62. Blairo Maggi, governador do Mato Grosso.
63. Robert B. Zoellick, presidente do Banco Mundial.
67. Hugo Chávez, presidente da Venezuela.

terça-feira

homenagem

"Seria preciso esperar (...) para que os caminhos, tanto tempo separados, se cruzassem: o que tem acesso ao mundo físico pela vereda da comunicação, e aquele de que se sabe há pouco que, pela vereda da física, chega ao mundo da comunicação. O processo todo do conhecimento humano assume, assim, o caráter de um sistema fechado. É, portanto, permanecer ainda fiel à inspiração do pensamento selvagem, reconhecer que o espírito científico, sob sua forma mais moderna, terá contribuído, por um encontro que somente aquele pôde prever, para legitimar seus princípios e para restabelecê-lo nos seus direitos." [O PENSAMENTO SELVAGEM, 1961]
Claude Lévi-Strauss, 1908-2009

segunda-feira

novembro

Uma, duas, cinquenta tardes e manhãs de asfalto quebrado, dúzias de noites novembras. E o que consegui colecionar? Mariposas cor de veludo, espessas e gomosas. Os dias do cinza espedaçados por dentro. Vou me encolhendo no sol que se esconde até ser homogêneo nos sonhos, que me sonham violeta e opaco. Sem nuvens brancas. Como num clarão negativo, uma febre ao contrário me assalta com calma e me faz não dormir. A voz acabrunhada mal sai. Os gestos só se esboçam. As colunas do futuro uma a uma trincadas. Os trabalhadores há anos desaparecidos começam a voltar ao canteiro, apanham sem vontade os pedaços dos tijolos espalhados na bagunça da demolição e, lenta e precisamente, retomam a construção do muro alto que por fim vai isolar o castelo das planícies. Cuidam para que haja janelas estreitas o suficiente, de modo que a luz, filtrada, não incomode por demais. As pálpebras dão lugar a unhas mal-cortadas e a barba se transforma em plumas. Abelhas vem morar nos ouvidos -- seu mel escorrendo pelo canto da boca dentro da boca dentro da boca. Os trabalhadores planejam um fosso ao redor da última muralha, e resolvem povoá-lo com cinismo quando a hora for precisa. Por enquanto, mariposas bastam. De asas peludas, cor de veludo, espessas e gomosas.

quinta-feira

para Gil

A força é bruta e a fonte da força é neutra.