quarta-feira

Stoff

Opaco. Denso. Seu cheiro me faz questionar a permanência das coisas. O que me resta? E, no entanto, o cheiro está lá. Abro a janela e lá está ele. Impregna-se nas paredes exteriores como musgo em cavernas. Permeia toda química mundana; posso senti-lo agora, lá vai ele no pouso de uma mariposa. Cada cerda microscópica incrustada aos milhares nas asas agitadas procurando a luz e produzindo a sombra – cada uma delas multiplica aquele olor. Refrata-se na borda de um espelho, no reflexo do sol em torres de vidro. Quando chega montado no esbugalhar das órbitas de cães molestados é miasma. Vem como aroma na textura tépida de lábios amados. Como negar apenas um lado e manter a consciência da unidade? O aroma me faz vivo enquanto o miasma me faz forte. Aniquila-me a infinita certeza da degradação dos elementos menos por revolta contra o tempo do que por saber que ele fica. O cheiro fica. Imutável nas suas manifestações multipolares. Inelutável. Só é possível esquecê-lo dele embriagando-se. Talhá-lo com as unhas; nos dentes carregá-lo; sorver seu aspecto; enrolar-se em sua manta. Incorporando-o em tudo o que em mim existe posso perdê-lo de vista, ocultá-lo consigo próprio. Sê-lo. Mas aí um capim espartano em alguma rachadura do passeio me joga na cara todas as crinas coloridas e geométricas que esvoaçam no corpo rugoso do nada e pimba! – o cheiro novamente. Estampado como um leque de gueixa.

terça-feira

ao Tempo

Caminho por ruas sutis,
cinzaclaro distante,
absorto em você.
Posso mergulhar em tua cor
tanto quanto é minha cor,
e me delimitas;
teu é meu círculo,
meus são teus olhos,
e me amplias.
Dá-me tua língua
e dou-te um sentido:
lapido. Teço. Moldo tua natureza em mim.
Mostra-me quilíceras
e dou-te mortalidade.

Comigo serás
até que eu não te seja mais.

segunda-feira

xis um

X. adentrou um mundo subterrâneo de metal e xenônio. A plataforma estava praticamente deserta, mas o ar era abafado. Poucas pessoas se utilizavam dos trens metropolitanos àquela hora. X. notou um olhar em sua direção, vindo do outro fim da plataforma. Um rapaz muito jovem, de traços delicados, metido numa estranha indumentária negra timidamente procurou os olhos de X. À perspectiva do outro, à percepção daquela consciência que o procurava com curiosidade por detrás duma face opaca, pálida até, X. vacilou. Por meio segundo o abismo que o isolava sucumbiu. Olhos, negros; por detrás deles a vastidão de sonhos, vales, mares, quartos, lençóis, fraquezas voluntárias de uma alma real e desconhecida. O rugir lancinante dos freios férreos do trem que chegava fez X. baixar os olhos. Adentrou o vagão. Nem todos os assentos estavam tomados. Os passageiros de feições vagas aparentavam estar em transe hipnótico, contemplando o ar às suas frentes como a um cristal magnífico, invisível e entediante.

O som produzido pelo deslocamento do trem através do infindável túnel escuro e claustrofóbico lembrava uma serra elétrica, dilatada no tempo, recortando cerâmica.

Exatamente à frente de X., num espaço reservado para anúncios, havia um cartaz de uma exposição de quadros holandeses. No centro do cartaz, uma reprodução fotográfica de uma pintura assaltou o olhar de X. Via-se uma moça, robusta, saudável, derramando leite numa tigela. Ela vestia uma camisa amarela, grossa, cujas mangas foram dobradas, deixando os antebraços nus. Na cabeça portava um chapéu que era mais como um pedaço de pano amarrado, identificando-a como uma criada. A barra de sua saia azul estava presa à cintura de modo que não se sujasse com o seu andar por dentro da casa, cuidando para que as coisas continuassem como estavam. A reprodução mostrava-a dentro de uma cozinha rústica, simplória. Uma mesa com broas de pão, uma cesta, panos de cozinha e uma jarra abrigava a tigela onde a moça deitava leite duma ânfora de terracota. À esquerda, no alto, uma janela exterior iluminava a cena de maneira fria e digna. A luz caía intensamente sobre a mesa, a moça e a parede nua atrás dela, criando sombras densas em todas as outras partes da reprodução. Uma cesta de vime e um bule de cobre dependuravam-se da parede em penumbra perto da janela. Uma fração mínima de vidro estava quebrada, permitindo a direta iluminação de uma lasca de madeira. Um prego na parede atrás da moça projetava uma delicada sombra cônica. A luz branca de um dia nublado refletia-se em todos os objetos da cena. As feições da moça eram altivas, profundamente concentradas na simples tarefa de por leite numa tigela. Estaria ela com os pensamentos na imensidão, no amor? Ou todo seu temperamento voltava-se para aquela ação tão quotidiana? De uma maneira ou de outra, ela mostrava-se completamente alheia ao espetáculo que a luz, os objetos e ela mesma proporcionavam ao contemplador da reprodução. Sua indiferença à majestosidade da cena a elevava a um patamar divino, fazendo-a ela própria majestosa. O mundo explodia em reflexos belíssimos e mostrava sua natureza sólida, silenciosa e eterna numa cozinha holandesa; sem alterar-se ela enchia uma tigela de leite através dos séculos.

Uma voz metálica vinda do alto anunciou algo, X. levantou-se e, quando as portas foram abertas, lançou-se a passos rápidos para fora.

quarta-feira

bad mood purging prayer



death to the square
call to the orgy
end to the civilization



by Mobutu Lord

segunda-feira

para Paulo, César e Lúcia

Aquí viene la vieja bruja negra del Gran Paraguay!

[Francis Bacon, "Painting 1946"]

frase do dia

A percepção das coisas que esvoaçam ao redor de si mesmas como que deixa-me existir só num mundo de fenômenos no tempo e no espaço e as pessoas concordam acerca do apenas ser quando se ouve aquele tipo de música revivalista de um culto localizado fora de todas as coisas fora-de-si num não-lugar cultivado com sutileza através de todos esses anos de vida consciente que enfim arrebatarão as distâncias alimentadas sazonalmente pelas grandes secas e as quais não podemos senão percorrê-las com ombros largos e céus suspensos e mandacarus em flor e chapéu de couro e um tanto tão tão tão tão tão grande de coragem que nem pensar já é correr e pensar sem ver já é morrer num pântano de árvores oblongas e retorcidas para sempre aprisionado num rejeitar.

quarta-feira

lendo Arthur I

Nossa vida, segundo Arthur, é dotada de um movimento pendular entre dois extremos, sem contudo repousar por muito tempo em um deles. Num pólo há o sofrimento, advindo de todo querer e desejo. O querer precede o objeto do querer, pois o anseio, o ímpeto cego, são nossa essência mesma -- que, diga-se de passagem, também é a essência do mundo exterior. No outro pólo há o tédio, que vem quando há uma satisfação temporária dos impulsos da vontade. Temporária pois a vontade jamais pode ser satisfeita, uma vez que é querer cego, ímpeto sem objeto a priori. Esse pêndulo, de acordo com Arthur, rege nossos dias. Quando nascemos, é como se uma corda de relógio fosse engrenada, e então o pêndulo começa seu movimento, até o dia em que a corda acaba. Seu movimento pode ser mais ou menos regular, mas, via de regra, é constante, pois sempre queremos algo e, quando o conseguimos à custa de privações e renúncias, nos desiludimos, pois voltamos ao estado em que estávamos antes de querer o que tanto suor nos custou. Sobrevém o tédio, até novo impulso da vontade entrar em cena e movimentar nossas ilusões mais uma vez. E assim segue a vida. Nem mesmo a morte do indivíduo é capaz de fazer parar esse pêndulo atroz, pois o indivíduo nada mais é do que um fenômeno da Vontade una, eterna, cega, auto-discordante e absoluta. Ou seja, a essência da vida para o sujeito é, fundamentalmente sofrimento e, nas breves ausências daquele, tédio.
Isso nos leva à consideração da vida do indivíduo como trágica, no sentido clássico da palavra. Os quereres, as ilusões, as buscas infindas, os amores perdidos, as conquistas incapazes de trazer paz, todos esses feitos, no final, não são capazes de nos trazer muitas coisas de fato duradouras. Os acréscimos não são permanentes e, muitas vezes, degeneram rapidamente em nossas mãos sempre sedentas. Frequentemente nos desiludimos quando alcançamos algum objeto passageiro de nossa vontade, recaindo com toda força no movimento pendular do qual nos julgávamos livres. Os heróis das tragédias passam por mil tormentos para no final serem derrotados, assim como nós, naquela perspectiva geral do curso de vida. No entanto, a vida do indivíduo quando considerada cotidianamente é dotada de um ar deveras cômico. Trocamos os pés pelas mãos a todo o tempo, buscamos aquilo que não podemos ter, nos enganamos acerca dos objetos de nosso querer, erigimos castelos de fantasias assaz neuróticas para tentar fazer uma ideia mais clara das coisas, turvando assim a água da fonte onde vemos nossos reflexo deformado -- como personagens de Woody Allen. Todavia, a afirmação daquele aspecto trágico, a sua aceitação, fruição e quiçá gozo, ressoa como a grande afirmação nietzschiana da vida, que nos faz grandiosos e altivos.
E, para encerrar esta nota, o que fazer com esse conhecimento, a saber, de que a Vontade, essência íntima do mundo, traduz-se por um ímpeto cego, eternamente voraz, auto-discordante, sem fim, cujo fenômeno é o mundo mesmo, toda a multiplicidade de objetos cuja inconstância contemplamos, enfim, que fazer? E o que fazer com todos os planos, ambições, desejos, se sabemos que não são capazes de alterar em essência o movimento do pêndulo schopenhaueriano, mas apenas impulsioná-lo para um lado ou para o outro?
"...Quando vem a madrugada
meu pensamento vagueia,
corro os dedos na viola
contemplando a Lua cheia;
apesar de tudo existe
uma fonte de água pura:
quem beber daquela água
não terá mais amargura.
Desilusão, desilusão..."