segunda-feira

despertar II

Para onde vão os belos dias não vividos? Seus elementos são reordenados e recalculados, redistribuídos democraticamente por toda a tribo de dias do porvir? A segunda-feira fica com o Sol. A terça com a preguiça. E assim vou diluindo o excesso de vida que me arrebenta as orelhas.

terça-feira

notas de outono revisitadas, parte 1 (para Godard)

Quis ser bravo, sair por ruas abertas e afogar-me em rios de flores solares. Devenir immortel -- et puis mourir.

notas de outono revisitadas, parte 2

Um pedaço de lugar se impôs naquele momento, interrompendo o fluxo das coisas do mundo. Lugar que ainda guardava a aura de indistinção própria dos sonhos; indiscernibilidade que desfolhava um certo cheiro de fantasia. Os pensamentos começaram a se agitar à medida que aquele objeto emergia da noite inconsciente -- como naufrágio que retorna do abismo coberto por cracas, algas e arraias. Era o mar que me chamava. O mar diurno e solar dos amores calmos e da saudade.

segunda-feira

para John Coltrane

sábado

in bloom

Nas ranhuras das pedras achar. Pelos detalhes recompor. Em um gesto redescobrir o amor. Num gole reconstituir os sabores e cheiros de uma viagem distante. A memória das coisas. Da pele. No calor do magma uma lembrança solar. Num instante de silêncio a harmonia em fuga de um olhar da mulher amada. Um membro perdido que regenera a totalidade do corpo. No mármore afrescos abstratos. Sob as unhas a dilacerante multiplicidade de formas evanescentes. Numa lua a adolescência e num sol a infância. À tarde dum dia qualquer, aos ventos minuanos, o sentimento oceânico de se viver num mundo ele mesmo vivo, tão mutável quanto em si, tão largo quanto raso. Estar aqui, nesta cidade sob esta lâmpada, estando em todas as cidades sob todas as lâmpadas que já se acenderam e se apagaram. A crista moicana duma onda que sempre volta a quebrar e volver, refluir para o centro do mar sem fim, plácido e vulcânico, azul e fatal, devaneio real de dias sem nome ou número, perdido numa vida sem décadas.

quarta-feira

minuano

O nevar da planície nua e selênica
espalha flocos de vidro branco
ao entornar as cores reais em cápsulas
que engulo ao ver o sol de inverno.

Despir-me de cidades frias e luminosas,
remover da pele o metal vivo
e receber no ritornelo da alma
o fluxo dos matizes rubros.

segunda-feira

devaneio racional

A consciência tenta constantemente infundar sua semente no inconsciente -- ao mesmo tempo em que este luta para desmembra-la, dilui-la. A consciência vale-se de um núcleo de auto-identidade e de produção de alteridade, o complexo do "eu", para tentar compreender a sombra e produzir o conhecimento. Essa produção é a engrenagem sutil, central e perene que jaz no centro das aspirações fáusticas da humanidade. O chamado complexo do "eu", no entanto, é um conjunto de relações auto-centradas de relativa fragilidade. Num plano microcósmico, deve enfrentar traumas, dissoluções e mistérios. Macrocosmicamente falando, no entanto, nota-se um inchaço da sua importância ao longo dos últimos séculos, e a ascensão da subjetividade ao trono do mundo marca nosso pensamento.