sábado

in bloom

Nas ranhuras das pedras achar. Pelos detalhes recompor. Em um gesto redescobrir o amor. Num gole reconstituir os sabores e cheiros de uma viagem distante. A memória das coisas. Da pele. No calor do magma uma lembrança solar. Num instante de silêncio a harmonia em fuga de um olhar da mulher amada. Um membro perdido que regenera a totalidade do corpo. No mármore afrescos abstratos. Sob as unhas a dilacerante multiplicidade de formas evanescentes. Numa lua a adolescência e num sol a infância. À tarde dum dia qualquer, aos ventos minuanos, o sentimento oceânico de se viver num mundo ele mesmo vivo, tão mutável quanto em si, tão largo quanto raso. Estar aqui, nesta cidade sob esta lâmpada, estando em todas as cidades sob todas as lâmpadas que já se acenderam e se apagaram. A crista moicana duma onda que sempre volta a quebrar e volver, refluir para o centro do mar sem fim, plácido e vulcânico, azul e fatal, devaneio real de dias sem nome ou número, perdido numa vida sem décadas.

quarta-feira

minuano

O nevar da planície nua e selênica
espalha flocos de vidro branco
ao entornar as cores reais em cápsulas
que engulo ao ver o sol de inverno.

Despir-me de cidades frias e luminosas,
remover da pele o metal vivo
e receber no ritornelo da alma
o fluxo dos matizes rubros.

segunda-feira

devaneio racional

A consciência tenta constantemente infundar sua semente no inconsciente -- ao mesmo tempo em que este luta para desmembra-la, dilui-la. A consciência vale-se de um núcleo de auto-identidade e de produção de alteridade, o complexo do "eu", para tentar compreender a sombra e produzir o conhecimento. Essa produção é a engrenagem sutil, central e perene que jaz no centro das aspirações fáusticas da humanidade. O chamado complexo do "eu", no entanto, é um conjunto de relações auto-centradas de relativa fragilidade. Num plano microcósmico, deve enfrentar traumas, dissoluções e mistérios. Macrocosmicamente falando, no entanto, nota-se um inchaço da sua importância ao longo dos últimos séculos, e a ascensão da subjetividade ao trono do mundo marca nosso pensamento.

quinta-feira

meio

Às vezes não há meio melhor para descrever um sentimento difuso e inapreensível do que discorrer longamente sobre uma paisagem.

sexta-feira

a estepe

Uma planície. Extensa. A vegetação tímida acarpeta o chão, fazendo-o algo entre verde e cinza. Uma fina névoa limita a visão a um horizonte difuso e o ar repousa sobre si mesmo. Acima jaz o céu infindável, incolor, irreal. Não há ruídos. Não há insetos. Não há fantasmas. Só ar, chão e grama selvagem.

Eu gostaria de afundar meus dedos na terra úmida, sentir seu cheiro orvalhado e sua textura fugidia.

William Turner (1775-1851) - Colour Beginning


segunda-feira

em favor do espírito trágico

Não há mais força nos verbos. Estamos prostrados sob a impotência das ações da linguagem. A contínua demolição das qualidades intrínsecas às coisas – ou melhor, a reclassificação de tais como miragens do eu – fez com que todo sujeito caísse de joelhos perante o Sistema. Sistema esse que sublevou o indefinido e racionalizou a vida. Para o sujeito do conhecimento, dada a condição do mundo ser uma vasta pluralidade de objetos, resta a própria cognição deste mundo, nas representações sonhadas e vividas. Logo, abrem-se diante de nossa vista quadros esquisitos: uma miríade de sujeitos representacionais a competir para abarcar de um só golpe de vista toda a pluralidade de facetas dos conteúdos das representações e dos objetos dos sentidos. Abarcar na acepção antediluviana do termo. Temos exemplos desse movimento nas artes, nas ciências, na economia, nos tortuosos caminhos das relações interpessoais e em quaisquer áreas que não resistiram ao processo pós-moderno de fragmentação e dissolução, ou que não foram capazes de superá-lo na direção de novas qualidades intrínsecas (o que bem pode ser uma negação, dando assim o Sistema conta de engolfá-la – o Sistema é totalitário). Tal cenário nos levanta questões ambíguas. Se por um lado há o desespero próprio de tão inusitada situação, e a metafísica implícita em tal salto, por outro há a possibilidade de surgirem novidades no campo semântico, ou melhor, de uma nova fase da revolução no campo semântico. Disto há exemplos em esferas relativamente marginalizadas no conjunto dos campos que, reiterados, compõem a episteme atual: algo na psicologia, na física, na música. Ora, possuímos acima todos os elementos de uma crise. Cisões entre campos outrora irmãos, parricidas epistemológicos, subjugações semânticas de toda sorte. Há também um consenso, ora silencioso, ora ensurdecedor, acerca da pluralidade e da extensão de tal crise. Os silenciosos afirmam a consolidação dos valores herdados da segunda fase do capitalismo tardio, seu estabelecimento global e sua interconexão com todos os aspectos da vida vivida e pensada, sua profunda quantificação esterilizante do espírito. Os gritantes clamam a chegada de um novo elo na corrente histórica humana, com a gênese de um paradigma capaz de amarrar as pontas frouxas do macro-sistema lógico-simbólico (o Sistema). Em outras palavras, há resumidamente duas perspectivas aparentemente opostas sobre a crise, porém ambas concordam em relação à sua envergadura e à sua natureza. Tal concordância nos remete à idéia de ser o futuro uma construção constante da atualidade e, assim, o primeiro carrega os vícios e ilusões da segunda. Mas seria a recíproca verdadeira? Ao caminharmos cada vez mais velozes rumo ao nosso destino, não estaríamos sendo limitados pelo mesmo? O mero fato de que é possível fazer-se esta pergunta obriga-nos a separarmo-nos tanto dos silenciosos quanto dos gritantes. Nós, órfãos rebeldes, nos voltamos para as representações do eu e suas multiplicidades, para a cambiante refração do mundo no prisma dos sentidos, a fim de conservar a última gota de honestidade, força e espírito trágico em nós. Até que não se possa tocar nenhuma superfície macia com as pontas dos dedos. Quando até mesmo isso for demolido, ou seja, quando a crise chegar ao seu termo, será colocado um ponto na história do Ocidente. Não me é possível imaginar sequer o que viria a ser um indício dessa distante aurora.