sábado
sonho 46x9-B
Um palácio de mármore no coração da Cidade. O piso é coberto por uma lâmina de água com não mais de meio centímetro de profundidade. Uma luz fantasmagórica e quente pulsa de nenhuma fonte aparente. O interior é ornamentado num estilo meio barroco meio tupi e a ausência de mobília é total. Há um cheiro campestre muito vago. Caminho por um salão branco em direção a um corredor menos iluminado, envolto por um umbral dourado. Pressinto que lá, do outro lado, pulsa a escuridão morna de uma floresta. Uma força simpática, irresistível, morna e muito antiga faz com que eu adentre o corredor. Penso ouvir o canto das Sirenes. Lá, na mata, minha presença é requisitada...
terça-feira
o tempo do Lobo
Virá a época em que todas as coberturas naturais serão removidas. A terra será exposta e seus filhos se integrarão a ela de maneira total. Os advogados do establishment perderão suas vozes roucas e todas as gravatas serão inúteis. Virão os irmãos e camaradas com faces encarvoadas. Rios de lodo correrão livres pelas escarpas nuas e todos ficarão com o cheiro do lodo, com a cor do lodo. Descomunais samambaias se dependurarão das ruínas dos monumentos e crianças e animais serão libertos da servidão. Cães sem pelo beberão da água esverdeada que brotará das fontes da liberdade, todas cobertas pelo lodo esverdeado da liberdade. Grandes fogueiras levarão luz aos quatros cantos da terra, e todos dançarão o retorno à pedra envoltos em trapos de poliéster e microfibra. Virão as primeiras flores, pois jamais terá havido flores.
segunda-feira
despertar II
Para onde vão os belos dias não vividos? Seus elementos são reordenados e recalculados, redistribuídos democraticamente por toda a tribo de dias do porvir? A segunda-feira fica com o Sol. A terça com a preguiça. E assim vou diluindo o excesso de vida que me arrebenta as orelhas.
terça-feira
notas de outono revisitadas, parte 1 (para Godard)
Quis ser bravo, sair por ruas abertas e afogar-me em rios de flores solares. Devenir immortel -- et puis mourir.
notas de outono revisitadas, parte 2
Um pedaço de lugar se impôs naquele momento, interrompendo o fluxo das coisas do mundo. Lugar que ainda guardava a aura de indistinção própria dos sonhos; indiscernibilidade que desfolhava um certo cheiro de fantasia. Os pensamentos começaram a se agitar à medida que aquele objeto emergia da noite inconsciente -- como naufrágio que retorna do abismo coberto por cracas, algas e arraias. Era o mar que me chamava. O mar diurno e solar dos amores calmos e da saudade.
segunda-feira
sábado
in bloom
Nas ranhuras das pedras achar. Pelos detalhes recompor. Em um gesto redescobrir o amor. Num gole reconstituir os sabores e cheiros de uma viagem distante. A memória das coisas. Da pele. No calor do magma uma lembrança solar. Num instante de silêncio a harmonia em fuga de um olhar da mulher amada. Um membro perdido que regenera a totalidade do corpo. No mármore afrescos abstratos. Sob as unhas a dilacerante multiplicidade de formas evanescentes. Numa lua a adolescência e num sol a infância. À tarde dum dia qualquer, aos ventos minuanos, o sentimento oceânico de se viver num mundo ele mesmo vivo, tão mutável quanto em si, tão largo quanto raso. Estar aqui, nesta cidade sob esta lâmpada, estando em todas as cidades sob todas as lâmpadas que já se acenderam e se apagaram. A crista moicana duma onda que sempre volta a quebrar e volver, refluir para o centro do mar sem fim, plácido e vulcânico, azul e fatal, devaneio real de dias sem nome ou número, perdido numa vida sem décadas.
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