quinta-feira
quero
Quero seu colo. Quero suas mãos doces no meu cabelo. Quero seu cheiro ao meu redor. Quero a realidade e a atualidade de ser envolvido pelo amor que emana dos seus olhos.
para Camus
Hoje eu vi a face do desespero. Um homem-sanduíche perambulando pelo centro anunciando vagas de sub-empregos. Magro, barbudo, velho. Perplexo e atordoado. Não há como vê-lo e não ser invadido por uma lucidez dilacerante.
domingo
antidualismo
Singular ser o homem. Pela memória molda o passado, pela esperança antecipa o futuro. Com que ânsia bebemos da jarra da esperança! E com que fanatismo agarramo-nos em nossas memórias mais obscuras e fantasmagóricas... O presente, nesse contexto, revela-se como a fugaz conversão da potência do vir-a-ser e todas suas decrescentes probabilidades em lembrança e hábito enevoando-se à medida que se distancia. Todo esse drama banal, cotidiano, semanal, policentenário desenrola-se apenas na nossa mente. Séculos, milênios de sucessão, de representação do tempo, de esquecimento. Os cães do Oblivion não possuem olhos, só bocas enormes com mil dentes, como vermes faraônicos, a constantemente rasgar e digerir as franjas da memória que se esvai contínua e certamente. Tais seres jamais sentem fome. São como guardiães de um mundo proibido, inacessível, impensável. Simbolicamente, são um dos limites da inteligibilidade do mundo. Por outro lado, há a vinda do futuro como irrevogável. A consciência do fim, ou seja, quando o universo em mim cessar de ser e dissolver-se, é fonte de uma tal angústia que só os humanos são capazes de sentir, sofrer e dar sentido. E, no entanto, apesar de nossas tentativas ora frias e pensadas, ora loucas e românticas, nossa capacidade de moldar o futuro é quase tanta quanto de moldar o passado. Isso já é bem grande. Mas ainda assim (valeu Maquiavel) as avalanches da fortuna continuam rompendo os diques da virtú, e a bruma da manhã continua envolvendo o barquinho a remo da consciência. Sobra o presente, o fugaz, vasto, eterno presente. Quanto menos palavras (gotas de outros tempos) precisamos para contemplá-lo, mais viva torna-se sua imagem. Pintá-lo em vermelho, amarelo, magenta, cobalto, grená, limão. Cessa a razão, cessa o discurso, a esperança e a memória. E então POU! CRASH! HURRAH! Malabarismo com bolas de basquete em corda bamba sobre cataratas do Iguaçu. Cachorro amordaçado com linguiça. Torrada com geléia amarrada em costas de gato em órbita.
quinta-feira
despertar I
Certas vezes o silêncio vem aliado a uma imensidão vazia vinda não sei de onde. Como se grandes espaços vagos ondulassem ao meu redor; mas ao abrir os olhos o espaço define-se como próximo e - não raro - opressivo. É um sentimento indefinido, de difícil caracterização. A iminência de obrigações cotidianas, o céu alvo, brilhante e estéril, essa amplificação dos ruídos que o silêncio traz, o claustro bem tolerado da metrópole, a solidão. Nesses momentos, internalizo o deserto e torno-me nômade, beduíno, caravana e miragem de mim. Como a aérea tartaruga marinha bicentenária e imensa dos meus sonhos flutuando na vastidão dégradé dos oceanos mais profundos.
saudades

Aqui chove e garoa há quarenta horas. Os dias, cinzas, parecem não-nascidos, ocultos sob muitas camadas de lençóis almofadados. O ruído da água é preguiçoso e melancólico quando ouvido através das janelas cerradas. O Arthur, numa conversa meio mineira, longínqua, me fala como toda a efetividade assenta-se sobre uma única coluna subjetiva; deito-o de lado, perto do copo vazio, e espero que a qualquer momento você abra a porta da frente, com uma malinha manca, de sobretudo bege. O cheiro dos cabelos lisos e negros, o sabor do pescoço convidativo, a faísca nos olhos, o corpo que chama... Noites em claro, dias em sombra. Com muito amor e saudades, do seu, Rafa.
segunda-feira
desculpas e obrigado
...sem internet em casa o acesso fica muito limitado. Mas os textos continuarão a se derramar por aqui em mais volume e fluidez. Obrigado a todos que contribuíram com comentários... e continuem visitando a página de vez em quando que, quem sabe, algo de novo surgirá.
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